fio de linha
...não sou dada a muita emoção, evito na verdade, mas todas as vezes que te vejo, os meus olhos se enchem de nuvens...
FIO DE LINHA
Ele pára diante de mim, com seus cento e oitenta e dois centímetros de altura, e me lança o ultimato: “vamos ver, papai, se você é capaz de escrever sobre um fio de linha, já que escreveu falando em gota d’agua, ramo de árvore e água parada”.
Quem assim me intimava era Rubio, o meu filho.
Apanhei as luvas no ar, e, hoje, vou procurar ganhar a parada.
Fio de linha que mãe amacia com lagrimas, quando cose a mortalha para o próprio filho.
Fio de linha que as rendeiras do norte e do nordeste do nosso Brasil empregam na confecção das rendas que suas mãos tecem, fazendo arte pura que lhes vai matar a fome.
Quanta musica existe no barulho dos bilros sobre a almofada...
Fio de linha meu filho, que lhe coseu a roupinha para a sua primeira comunhão, quando eu me revi em você, tão compenetradozinho, de roupa branca, laçarote de fita azul no braço.
Fio de linha que coseu os mil vestidos riquíssimos de uma artista de cinema, ou de uma “dez mais”, mas faltou para coser a saia de algodão, tão rasgada, da mulher que vem sempre à nossa casa, pedir esmolas.
Fio de linha que Xangá, o gato lá de casa, gostava de puxar do carretel, caído sobre o tapete, enquanto minha mãe fazia crochê.
Fio de linha dos fusos das fabricas, onde miseráveis operários afundam os olhos, no labor cotidiano, para que os tubarões estufem as panças, nas farras diuturnas.
Fio de linha com que eu, tantas vezes, empinei o meu “papagaio” de papel, delírio das alturas de meus oito anos.
Fio de linha que costura o pano verde dos bacarás e as toalhas dos altares.
Fio de linha que borda o monograma da blusa do médico que cura, e o blusão do pistoleiro que mata.
Fio de linha, meu filho, sobre o qual, se estivesse estendido sobre um abismo, eu não vacilaria em me equilibrar, se, na outra margem, você estivesse correndo perigo.
Antonio Juruena Di Guimarães
Cronista goiano.

Nenhum comentário:
Postar um comentário